21/06/2008

Oleiro e Barro


Acorda! Já é dia e o teu destino

é fazer teu destino caminhando!

Tu és, ao mesmo tempo, oleiro e barro;

Tu és, num só momento, o boi e o carro!

Acorda! O tempo urge...Tu não sabes

que deténs as rédeas da ação?

Tu és a solução dos teus problemas

e a chave que abre tuas algemas

repousa, eternamente, em tua mão!

Levanta! O sol se põe... Bate a poeira

acumulada por tantos verões!...

Tu és a vela-mestra da História,

o caminho que conduz à glória,

a semente das revoluções!

20/06/2008

De como o açaí deixou de ser veneno

Damuitas histórias do arco da velha que ouvi quando criança, no Cajary, gosto desta, contada pelo tio Tavino, que explica por que o açaí não faz mal a ninguém. Nem mesmo quando tomado azedo, de um dia pro outro, sem nenhum processo de conservação.

Tio Tavino afirmava, do alto de sua sabedoria cabocla, que o açaí “não era veneno por um grau”. E explicava:

- No tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo, passando um dia, em companhia de São Pedro, por baixo de um açaizeiro, encontrou vários caroços espalhados pelo chão. Curioso, apanhou um caroço e roeu.
Em seguida, cativado pelo sabor peculiar do fruto, resolveu abençoá-lo para que todos pudessem desfrutar de suas nutritivas qualidades. E foi assim, segundo o tio Tavino, que a partir daquele momento o açaí velho de guerra deixou de ser veneno.

Em minha infância de menino do interior, eu acreditava em tudo o que os mais velhos contavam. E ficava

imaginando Nosso Senhor Jesus Cristo, com suas longas vestes e pés descalços, andando pelas matas do Cajary sempre acompanhado do seu amigo Pedro. E era como se estivesse vendo o momento da bênção: O Divino Mestre agachado e proferindo as santas palavras com os lábios roxos de açaí...


E que assim seja para sempre. Amém!

09/06/2008

Encavernado

Chove sobre a cidade. Chuva densa, impiedosa. Chuva que exerce sobre mim o estranho poder de conduzir-me às brenhas de mim mesmo qual animal acuado à procura da toca. Troglodita indefeso em busca do ventre pétreo da caverna...

Mergulho em meus comigos a cismar sobre o destino da Terra e do Homem – esse construtor de estradas para lugar nenhum. Mas quando a antevisão do caos me deixa apavorado e triste, transponho os muros do real e vou colher, no pomar dos sonhos, os pomos dourados da poesia.

Os poetas somos, em nosso ofício, criaturas solitárias por razões que bem não atino. Talvez pela necessidade de estarmos a sós com a palavra no momento mágico da concepção da poesia, para que nenhum mortal possa testemunhar a dor ou a alegria estampadas em nossas faces na hora do parto do poema.

Chove. Cerco-me de palavras para tentar esquecer que neste momento o planeta é oferecido em holocausto aos deuses do progresso e que, em nome de Deus e da Justiça, homens sacrificam-se mutuamente como se fosse possível conceber guerra justas e santas!...

Tento desesperadamente convencer-me de que a poesia está acima do bem e do mal, acima dos homens, de suas leis, crenças e ideologias. Digo a mim mesmo que os poetas somos seres privilegiados, que não devemos, por isso, deixar que a voz das armas fale mais alto aos nossos ouvidos que a voz do vento, que a voz do mar, que a voz do nosso coração. Mas é impossível enganar-se a si mesmo quando se tem o peito dilacerado por uma bala ou por uma lâmina de baioneta que, sem pedir licença, invadem nossos lares via satélite. Impossível não escutar as trombetas do Apocalipse anunciando que mais cordeiros serão imolados para saciar a sede de modernos e sádicos vampiros.

A chuva faz-me regredir no tempo e voltar à caverna, jardim de infância da humanidade onde o homem rabiscou a primeira flor, domou a primeira fera, articulou a primeira palavra, fabricou a primeira arma e, seguramente, organizou a primeira batalha contra seus semelhantes...

Os ruídos da chuva misturam-se ao som do televisor que exibe imagens de um conflito qualquer. Imagens cruéis, animalescas. Fatos que fazem com que eu me sinta, verdadeiramente, um troglodita cercado de feras e condenado aos limites de minha própria caverna. Humana e trágica caverna a se fechar, cada vez mais, em torno de meus medos, meus delírios, minhas convicções...

E é assim que vejo a alegoria platônica da caverna realizar-se em mim. Atualizar-se com o regresso do homem ao seu primitivo útero de pedra. Mas, ao contrário do mito, já não há boas novas para anunciar. Apenas a triste constatação de que o homem moderno, a despeito de sua avançada tecnologia que lhe permite destruir seu semelhante

e o meio em que vive com o auxílio do átomo, não conseguiu ser um pouco melhor que seus ancestrais que já faziam o mesmo com paus e pedras. É triste admitir que em plena era da informática as armas continuem a falar mais alto que as palavras e que estas sirvam de instrumento para promover a discórdia entre os povos, para inverter e perverter valores, para transformar a liberdade numa “calça velha, azul e desbotada...”

A chuva passou mas eu continuo entrincheirado entre palavras. Afundo e confundo-me nelas para proteger-me das garras do ódio, para resistir às leis das armas. Com elas fabrico, quixotescamente, meu escudo e minha lança para investir contra os moinhos da insensibilidade humana.

Os poetas somos criaturas solitárias a esgrimir com o verbo. E precisamos, urgentemente, de paz para continuar semeando amor e poesia nos canteiros do mundo, nos pomares da vida, nos corações dos homens.

04/06/2008

Kararaô !

Em cada curva de rio,

em cada palmo de chão

da Amazônia existe um olho

observando o Dragão

com seu hálito de fogo,

seu discurso demagogo,

seu poder de sedução...

E em cada rosto caboclo

existe um índio escondido,

enclausurado em si mesmo,

discriminado, oprimido,

escravo em sua própria terra

trazendo o grito de guerra

no coração reprimido.

Eu sou a voz desse índio :

a flecha, a lança, a borduna...

Sou peixe na piracema,

limo de várzea, boiúna,

tronco no rio submerso

e, se me desfaço em verso,

sou arma, pão e tribuna!

Meu cantar é berço e tumba,

é pedra, rosa e punhal;

é chuva regando a terra,

é fogo no matagal :

alerta, instiga, provoca

com fúria de pororoca,

força de vento geral!

Mas não desperte essa fera

no meu peito adormecida,

concebida e alimentada

na dor da própria ferida.

Seu corpo de argila e trigo

serve e alimento e abrigo

aos que lutam pela vida.

Canto as glórias do meu povo

e as dores desta nação.

Meu canto é grito de guerra,

punhal contra a servidão :

- Kararaô ! Canto alado,

pendão de amor desfraldado

em defesa do meu chão!

02/06/2008

Eu, o Boto


Eu venho de um mundo

que tu não conheces:

do onde, do quando,

do nunca, talvez...

Eu venho de um rio

perdido em teus sonhos,

um rio insondável

que corre em silêncio

entre o ser e o não ser.


Eu venho de um tempo

que os homens não medem:

nenhum calendário

registra meus dias.

Sou filho das ondas

que gemem na praia,

sou feito de sombras,

de luz, de luar

e trago em meu rosto

mandinga e mistério,

e guardo em meus olhos

funduras de rio.

Cuidado, cabocla!

Cuidado comigo

que eu sou sempre tudo

o que anseias que eu seja:

teus ais, teus segredos,

tua febre, teu cio...

Se em noites de lua

sentires insônia

e a fome de sexo

queimar tuas entranhas,

a sede de beijos

tua boca secar

e em brasa o teu corpo

meu corpo exigir,

contigo estarei

na rede do encanto

cativo nas malhas

da teia do amor.

E quando os teus olhos

fitarem meus olhos,

e quando os meus lábios

teus lábios tocarem,

e quando os meus braços

laçarem teu corpo,

e quando o meu ser

em teu ser penetrar,

só então saberás

quem sou e a que vim.

E assim que a semente

do amor, do desejo,

vingar no teu ventre

gerando outro ser,

não mais estarei

contigo, somente

a minha lembrança

permanecerá

boiando nas águas

barrentas, confusas,

da tua memória

cansada, febril...

- Foi sonho? - Foi fato?

Ninguém saberá!...