27/12/09

FAÇAMOS O IMPOSSÍVEL!

Sejam bem vindos ao ano

Dois Mil e Dez! E que agora,

todos juntos, ombro a ombro,

se dêem as mãos sem demora.

Todos por um, um por todos,

sem desavenças e engodos

em prol de uma nova aurora!”


Sejam nossas diferenças

a pedra filosofal

capaz de unir nossos sonhos

em torno de algo real.

Se um outro mundo é possível,

façamos, pois, o impossível

em busca desse ideal!


Que todos pensem num mundo

mais justo, mais solidário;

que as mãos do amor e da ética

construam um novo cenário

onde o ser suplante o ter

e a paz deixe, enfim, de ser

três letras no dicionário!


Para que o bem natural

não seja levado a rodos

e a farsa neo-liberal

já não mais sirva de engodos;

pelo acesso aos bens comuns,

para que a gula de alguns

não destrua o que é de todos!


Pela cultura da paz

sem olhar crentes e ateus,

pelo fim de tantas guerras

feitas em nome de Deus

enlutando tantos lares!...

E que as armas nucleares

virem peças de museus!


Pela defesa da Terra,

da Amazônia e seus viventes,

pelo direito à igualdade

para que todas as gentes

trilhem seus próprios caminhos

- indígenas, ribeirinhos,

tribais e afro-descendentes.


Contra a discriminação

seja de que tipo for:

quer de opção sexual,

de credo, gênero, cor,

pensamento, ideologia,

modo de vida, etnia...

Todos têm igual valor!


Que a democratização

de todo conhecimento

seja, enfim, realidade

em toda parte e momento,

que a educação e a cultura

chegue a toda criatura

sem qualquer impedimento.


Mas, para que os nossos sonhos

se transformem em realidade,

é necessário que todos

comprometam-se, em verdade,

manter essa chama acesa

para o bem da Natureza

e de toda a humanidade!


18/12/09

É NATAL !

É Natal! No amor insisto
pois sei que qualquer presente
só tem valor quando o Cristo
renasce dentro da gente!

É Natal! Que ateus e crentes
sigam o exemplo da mão:
cinco dedos diferentes
repartindo o mesmo pão!

É Natal! Que Deus-Menino,
lavrador do bem fecundo,
lance os grãos do amor divino
pelos canteiros do mundo!

É Natal! Que os bens comuns
já não mais sirvam de engodos
e a mesa farta de alguns
faça a alegria de todos!

Pois no luxo ou na pobreza
será sempre Natal, creia,
quando oa Paz senta-se à mesa
e o Amor reparte a ceia.

FELIZ NATAL PARA TODOS!

30/11/09

JAMAXIM

Vou pela vida carregando às costas

meu jamaxim de sonhos e pesares

repleto de ideais pirateados

comprados no comércio de ilusões.


Eu sou aquele que se cria criando:

faço o próprio caminho e sigo em frente

à demanda de mim em mim perdido

ocultando em mim mesmo o que procuro.


Há um boto escondido em meu destino

que procura enganar-me a todo instante,

que me faz pescador, anzol e peixe

na tentativa de me confundir.


Ah! esse boto! Sagaz capitalista

a emprenhar, sem dó, meu jamaxim

de tudo o que meu ser jamais precisa

para desabrochar livre e feliz.


E enquanto eu carecer de bugigangas

( relógio, celular, cartão de crédito ),

perdido vagarei sem rosto e rastro,

distante do meu povo e do meu chão.


********************************


( Poema premiado no XII Festival de Poesia

de Santarém, Salão do Livro, 28/11/2009)



09/10/09

INSENSO E MIRRA


Eis-me aqui, Senhora, bubuiando
- igarité de anseios e pecados –
nas águas desse rio de reza e riso
a correr para o mar do Teu amor.

Mas como ver-Te santa na Berlinda
se vejo-Te, Senhora, naufragada
entre rostos sofridos, pés descalços,
mãos que sangram na Corda, entre marias

envoltas em mortalhas carregando
promessas e sofrências sob os véus...
...e eu aqui, Senhora, enclausurado

em meu sudário feito de ilusões...
Pequeno mururé vagando a esmo
num rio secular de incenso e mirra.

28/09/09

Três Décimas de Adeus Para Nazareno Silva

... e Tio Nazo partiu... Partiu levando consigo um pouco daqueles que amam e lutam pela cultura popular de nossa terra. Em troca deixou entre nós a semente de seu exemplo de vida, de sua luta em prol de um mundo melhor. Que a paz de Deus esteja contigo, irmão de sonhos.

Chora matraca, pandeiro,

soluça forte, tambor,

para espantar essa dor

que fincou pé no terreiro.

Corre no campo, vaqueiro,

e traz o Boi Pavulagem

para prestar homenagem

ao valente Nazareno

que encerra o labor terreno

e embarca em nova viagem.


Chora meu Boi Malhadinho,

Bole-bole, Xequerê

e Pedreirinha, porque

Deus chamou nosso padrinho.

Foi preparar um cantinho

para o boi dançar no Céu.

Levou tambor e chapéu

todo enfeitado de fita

pra festa ficar bonita

com alegria a granel!


Vai, Tio Nazo! Vai cantando

para os campos do infinito

que o teu exemplo bonito

o vento vai espalhando

nas praças, multiplicando

teu recado de esperança

no sorriso da criança

que tomaste pela mão

indicando a direção

com amor e confiança.


24/09/09

HISTÓRIA ANTIGA


Faz muito tempo, menino,
que aconteceu essa história...
Se não me falha a memória,
numa cidade da Grécia
e traduz as peripécias
de um sábio dito Platão
que em sua imaginação
planejava uma república
( não tão livre nem tão pública )
muito bem arquitetada
e somente governada
por filósofos de escol.
E desse importante rol
ficavam fora os poetas
com suas musas inquietas,
tidos como agitadores,
demiurgos criadores
de falsa realidade,
um perigo pra cidade!

Imaginava Platão:
“Com a força da persuasão
e mais o mando político,
o poder do senso mítico
volverá contra o razão”.

E para cortar a mal
pela raiz, chamaria
os poetas e daria
a todos coroas de louros
( falsos símbolos, tesouros
de tolos, na realidade )
e em seguida da cidade
seriam todos banidos
como se fossem bandidos,
criminosos sociais.
Porém não pense, rapaz,
que a história termina aí
ela chegou até aqui
pois, em nome da verdade,
a nossa sociedade,
à maneira de Platão,
ainda faz restrição
aos vates dos nossos dias
que ao lhes cobrir de honrarias,
não lhes dá poder nem cargo
fazendo-os sorver o amargo
licor dos atos mesquinhos
onde a coroa de louro,
um verdadeiro desdouro
sem poesia, sem cor,
possui o mesmo valor
de uma coroa de espinhos.

05/09/09

"VERÁS QUE UM FILHO TEU..."


7 de Setembro de 1999. A exemplo de anos anteriores eu participava da “Marcha dos Excluídos”, ato público a nível nacional organizado por setores da Igreja, partidos de esquerda e segmentos da sociedade organizada para denun-ciar os crônicos problemas do Brasil, de Cabral aos dias atuais.

Como de costume eu distribuía corações de papel contendo trovas contextuais, entre os manifestantes e o público em geral, como as que seguem:

Acobertando bandidos,

vai a Justiça, em verdade,

aumentando a impunidade

e a procissão de excluídos!

***

Existe, em nossa República,

gente mal-intencionada

fazendo na vida pública

o mesmo que na privada!

***

Brasil, país onde abunda

a impunidade e seus traumas:

o povo toma na bunda

e o governo bate palmas!

Entramos no rabo do último pelotão do exército que participava da “parada militar” e seguimos pela avenida Serzedelo Correa rumo à Presidente Vargas, onde a polícia militar já estava postada com “ordens superiores” de não deixar passar ninguém. Os organizadores do ato ainda tentaram dialogar com os “donos da rua” sem sucesso.

A partir daí, já com os ânimos exaltados, os manifestantes forçaram a barra gritando palavras de ordem contra a repressão mas foram recebidos pelos milicos com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Instalou-se o caos: gritos, correria, tosses e sufocamentos provocados pelo gás de efeito (i)moral. Muita gente ferida, inclusive este valente

escriba, atingido por estilhaços de bombas nos braços e barriga.

Tentando proteger minha estimada carcaça, entrin- cherei-me detrás de um carro esperando a refrega passar, enquanto o locutor do carro-som dos manifestantes pedia, desesperadamente, calma de ambas as partes. No espaço vazio que se formou entre os manifestantes e a polícia, uma grande faixa de pano jazia sobre o asfalto, abandonada por seus condutores, onde se lia, ironicamente, em letras garrafais: “BRASIL, VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA!”

01/09/09

O POETA E A SABIÁ


Em uma de minhas visitas ao Príncipe dos Poetas Paraenses, meu amigo Alonso Rocha, uma surpresa: o Poeta veio abrir o portão às escuras com o dedo indicador posto nos lábios em sinal de silêncio. Ao cruzarmos o pátio da residência, a revelação inusitada: uma sabiá construíra seu ninho no xaxim da samambaia e estava, naquele momento, chocando os ovos sob os cuidados do autor de O Tempo e o Canto. Sorte da sabiá que tem no laureado sonetista e trovador paraense um amigo e defensor, chegando ao ponto de ter, em seu quintal bem arborizado, um “refeitório de passarinhos” onde coloca ração para as várias espécies que por lá aparecem. Coisas de Poeta e passarinhos...

20/08/09

O SENHOR DOS LIVROS


Praça da República em Santa Maria de Belém do Grão Pará. Manhã de domingo prenhe de sol. Caminhava pelas calçadas com minha inseparável bolsa à tira-colo e alguns livros e folhetos na mão à caça de leitores dispostos a comprá-los. De repente, um grito de menina ecoa na multidão de traseuntes:

- Olhe, mamãe, o senhor dos livros!

Evidentemente que a intenção da garota foi chamar a atenção da mãe para a minha presença, nomeando-me através da mercadoria que apregoava. Talvez até já me conhecesse de outras praças, escolas, feiras...

A frase, dita assim de surpresa, soou diferente aos meus ouvidos: foi como se ela falasse de alguém com poderes mágicos e absolutos sobre os livros a exemplo de “O Senhor dos Anéis”, “O Senhor dos Ventos”...

E foi assim que me vi, repentinamente, transformado no fantástico Senhor dos Livros, um mago ou super-herói vestido de palavras e transferindo a eles, os livros, com a força do meu cajado, poderes para atrair as pessoas para dentro de suas páginas, para o mundo mágico da leitura. Ah!, quem me dera, quem me dera!...

08/08/09

Poesia no Ver--o-Rio

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