30/11/09

JAMAXIM

Vou pela vida carregando às costas

meu jamaxim de sonhos e pesares

repleto de ideais pirateados

comprados no comércio de ilusões.


Eu sou aquele que se cria criando:

faço o próprio caminho e sigo em frente

à demanda de mim em mim perdido

ocultando em mim mesmo o que procuro.


Há um boto escondido em meu destino

que procura enganar-me a todo instante,

que me faz pescador, anzol e peixe

na tentativa de me confundir.


Ah! esse boto! Sagaz capitalista

a emprenhar, sem dó, meu jamaxim

de tudo o que meu ser jamais precisa

para desabrochar livre e feliz.


E enquanto eu carecer de bugigangas

( relógio, celular, cartão de crédito ),

perdido vagarei sem rosto e rastro,

distante do meu povo e do meu chão.


********************************


( Poema premiado no XII Festival de Poesia

de Santarém, Salão do Livro, 28/11/2009)



09/10/09

INSENSO E MIRRA


Eis-me aqui, Senhora, bubuiando
- igarité de anseios e pecados –
nas águas desse rio de reza e riso
a correr para o mar do Teu amor.

Mas como ver-Te santa na Berlinda
se vejo-Te, Senhora, naufragada
entre rostos sofridos, pés descalços,
mãos que sangram na Corda, entre marias

envoltas em mortalhas carregando
promessas e sofrências sob os véus...
...e eu aqui, Senhora, enclausurado

em meu sudário feito de ilusões...
Pequeno mururé vagando a esmo
num rio secular de incenso e mirra.

28/09/09

Três Décimas de Adeus Para Nazareno Silva

... e Tio Nazo partiu... Partiu levando consigo um pouco daqueles que amam e lutam pela cultura popular de nossa terra. Em troca deixou entre nós a semente de seu exemplo de vida, de sua luta em prol de um mundo melhor. Que a paz de Deus esteja contigo, irmão de sonhos.

Chora matraca, pandeiro,

soluça forte, tambor,

para espantar essa dor

que fincou pé no terreiro.

Corre no campo, vaqueiro,

e traz o Boi Pavulagem

para prestar homenagem

ao valente Nazareno

que encerra o labor terreno

e embarca em nova viagem.


Chora meu Boi Malhadinho,

Bole-bole, Xequerê

e Pedreirinha, porque

Deus chamou nosso padrinho.

Foi preparar um cantinho

para o boi dançar no Céu.

Levou tambor e chapéu

todo enfeitado de fita

pra festa ficar bonita

com alegria a granel!


Vai, Tio Nazo! Vai cantando

para os campos do infinito

que o teu exemplo bonito

o vento vai espalhando

nas praças, multiplicando

teu recado de esperança

no sorriso da criança

que tomaste pela mão

indicando a direção

com amor e confiança.


24/09/09

HISTÓRIA ANTIGA


Faz muito tempo, menino,
que aconteceu essa história...
Se não me falha a memória,
numa cidade da Grécia
e traduz as peripécias
de um sábio dito Platão
que em sua imaginação
planejava uma república
( não tão livre nem tão pública )
muito bem arquitetada
e somente governada
por filósofos de escol.
E desse importante rol
ficavam fora os poetas
com suas musas inquietas,
tidos como agitadores,
demiurgos criadores
de falsa realidade,
um perigo pra cidade!

Imaginava Platão:
“Com a força da persuasão
e mais o mando político,
o poder do senso mítico
volverá contra o razão”.

E para cortar a mal
pela raiz, chamaria
os poetas e daria
a todos coroas de louros
( falsos símbolos, tesouros
de tolos, na realidade )
e em seguida da cidade
seriam todos banidos
como se fossem bandidos,
criminosos sociais.
Porém não pense, rapaz,
que a história termina aí
ela chegou até aqui
pois, em nome da verdade,
a nossa sociedade,
à maneira de Platão,
ainda faz restrição
aos vates dos nossos dias
que ao lhes cobrir de honrarias,
não lhes dá poder nem cargo
fazendo-os sorver o amargo
licor dos atos mesquinhos
onde a coroa de louro,
um verdadeiro desdouro
sem poesia, sem cor,
possui o mesmo valor
de uma coroa de espinhos.

05/09/09

"VERÁS QUE UM FILHO TEU..."


7 de Setembro de 1999. A exemplo de anos anteriores eu participava da “Marcha dos Excluídos”, ato público a nível nacional organizado por setores da Igreja, partidos de esquerda e segmentos da sociedade organizada para denun-ciar os crônicos problemas do Brasil, de Cabral aos dias atuais.

Como de costume eu distribuía corações de papel contendo trovas contextuais, entre os manifestantes e o público em geral, como as que seguem:

Acobertando bandidos,

vai a Justiça, em verdade,

aumentando a impunidade

e a procissão de excluídos!

***

Existe, em nossa República,

gente mal-intencionada

fazendo na vida pública

o mesmo que na privada!

***

Brasil, país onde abunda

a impunidade e seus traumas:

o povo toma na bunda

e o governo bate palmas!

Entramos no rabo do último pelotão do exército que participava da “parada militar” e seguimos pela avenida Serzedelo Correa rumo à Presidente Vargas, onde a polícia militar já estava postada com “ordens superiores” de não deixar passar ninguém. Os organizadores do ato ainda tentaram dialogar com os “donos da rua” sem sucesso.

A partir daí, já com os ânimos exaltados, os manifestantes forçaram a barra gritando palavras de ordem contra a repressão mas foram recebidos pelos milicos com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Instalou-se o caos: gritos, correria, tosses e sufocamentos provocados pelo gás de efeito (i)moral. Muita gente ferida, inclusive este valente

escriba, atingido por estilhaços de bombas nos braços e barriga.

Tentando proteger minha estimada carcaça, entrin- cherei-me detrás de um carro esperando a refrega passar, enquanto o locutor do carro-som dos manifestantes pedia, desesperadamente, calma de ambas as partes. No espaço vazio que se formou entre os manifestantes e a polícia, uma grande faixa de pano jazia sobre o asfalto, abandonada por seus condutores, onde se lia, ironicamente, em letras garrafais: “BRASIL, VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA!”

01/09/09

O POETA E A SABIÁ


Em uma de minhas visitas ao Príncipe dos Poetas Paraenses, meu amigo Alonso Rocha, uma surpresa: o Poeta veio abrir o portão às escuras com o dedo indicador posto nos lábios em sinal de silêncio. Ao cruzarmos o pátio da residência, a revelação inusitada: uma sabiá construíra seu ninho no xaxim da samambaia e estava, naquele momento, chocando os ovos sob os cuidados do autor de O Tempo e o Canto. Sorte da sabiá que tem no laureado sonetista e trovador paraense um amigo e defensor, chegando ao ponto de ter, em seu quintal bem arborizado, um “refeitório de passarinhos” onde coloca ração para as várias espécies que por lá aparecem. Coisas de Poeta e passarinhos...

20/08/09

O SENHOR DOS LIVROS


Praça da República em Santa Maria de Belém do Grão Pará. Manhã de domingo prenhe de sol. Caminhava pelas calçadas com minha inseparável bolsa à tira-colo e alguns livros e folhetos na mão à caça de leitores dispostos a comprá-los. De repente, um grito de menina ecoa na multidão de traseuntes:

- Olhe, mamãe, o senhor dos livros!

Evidentemente que a intenção da garota foi chamar a atenção da mãe para a minha presença, nomeando-me através da mercadoria que apregoava. Talvez até já me conhecesse de outras praças, escolas, feiras...

A frase, dita assim de surpresa, soou diferente aos meus ouvidos: foi como se ela falasse de alguém com poderes mágicos e absolutos sobre os livros a exemplo de “O Senhor dos Anéis”, “O Senhor dos Ventos”...

E foi assim que me vi, repentinamente, transformado no fantástico Senhor dos Livros, um mago ou super-herói vestido de palavras e transferindo a eles, os livros, com a força do meu cajado, poderes para atrair as pessoas para dentro de suas páginas, para o mundo mágico da leitura. Ah!, quem me dera, quem me dera!...

08/08/09

Poesia no Ver--o-Rio

video

01/08/09

SABATINA


Acontecia, obviamente, aos sábados. Uma espécie de revisão de conteúdo semanal na Escola São José do Cajari. Os alunos em pé formando um semi-círculo, a palmatória negra de acapu na mão da professora e o medo estampado em cada rosto caboclo. A cada sábado, uma disciplina na berlinda. A mestra fazia a pergunta ao aluno ou aluna que encabeçava o semi-círculo: resposta errada, “bolo” na hora. Cada pergunta não respondida era repassada a quem estivesse na vez que, respondendo corretamente, ganhava o direito de castigar o colega que errou. Muitas vezes a questão passava por muitos sem ser respondida e quando alguém acertava, fazia uma verdadeira faxina, distribuindo bolos nos demais. Eu, que ao contrário da maioria tinha livros em casa além de ser neto de professores leigos, poucas vezes dei a mão à palmatória.

Hoje, com o coração apertado, lembro das tantas mãos jovens, frias, trêmulas e suadas que desci a palmatória sem piedade, como um verdugo. Na época sentia orgulho do feito mas agora, depois de tanto tempo, essas lembranças doem tanto ou mais em minha alma do que doeram naquelas humildes e indefesas mãos ribeirinhas.

31/07/09

Escritores no balanço das águas do Marajó

video
Viagem de barco para Ponta de Pedras, para participação no I Jirau Interiorano de Literatura. No fragrante aparecem o poeta Antonio Juraci Siqueira, o cordelista Apolo de Caratateua, a jovem Leidiane, o escritor Salomão Laredo e a poeta Sônia Santos.