03/08/13

CIVILIZAÇÃO



Tantos rostos perdidos
na imensa avenida
que a lida transforma
num abismo sem fim.

Tantas mãos que tateiam
pela escuridão
à cata de amor,
de abrigo, de pão...

Ouvidos atentos
que nada mais ouvem,
olhos abertos que nada mais vêem,
pés que se movem no mesmo lugar...

Pobre caminheiro sem caminho,
pássaro sem asas e sem ninho!

Triste animal que ri da própria sorte,
que sepulta a vida e ressuscita a morte!

Mas a festa continua e ele dança.
Dança e canta,
canta e cansa,
cansa e morre
porre de orgulho e presunção
por ser integrante
de tão propalada
civilização!!!


Fonte: Incêndios e Naufrágios - Antologia Poética

27/07/13

QUANDO



Quando o fogo destes versos consumir
teus segredos, virtudes e pecados,
eu estarei à margem do caminho
qual Prometeu furtivo te espreitando
para roubar a chama imorredoura
que arde na redoma indestrutível
do teu peito risonho de criança.

 Quando a fome do amor comer meus olhos
impedindo-me de ver as mariposas
que copulam sobre as pétalas noturnas
de um rubro girassol filosofal,
tu estarás oculta entre as miragens
de um sonho metafísico gravado
numa canção latino-americana.

Então, quando isso tudo acontecer,
não seremos , simplesmente, macho e fêmea:
seremos sementes de vida e esperança
a germinar nos campos da existência,
a florescer no amor e dar ao mundo
os cobiçados pomos da poesia.



Fonte: Incêndios e Naufrágios

13/07/13

INCÓGNITO



Parti no alvorecer, ainda menino,
à procura do Amor e da Verdade
mas antes de se por o sol a pino
entre pedras perdi a identidade.

Debalde tento agora reencontrá-la
em cada esquina, em cada gesto e olhar...
- Quem sou?  -  pergunto ao céu e ele se cala;
- Que sou? – desesperado indago ao mar.

E sem respostas – pássaro sem ninho –
vou pela vida na indefinição
de quem procura, às cegas, um caminho
para o porto inseguro da ilusão.



Fonte: Incêndios e Naufrágios - Antologia Poética

06/07/13

JUVÊNCIO

JUVÊNCIO

Assim vai Juvêncio
na sua aventura.
Da mata, o silêncio,
suave langor...
- Que motivo tanto
pra tanta bravura?
- Vai atrás do encanto
do seu santo amor.

Um riso escondido
no rosto moreno.
Herói das entranhas
das matas em flor.
No olhar sereno,
uma luz estranha...
Coisas do Cupido,
ciladas do amor!

Vai rasgando as águas
revoltas e turvas,
afogando as mágoas,
sufocando a dor.
Vai dobrando as curvas
do rio e da vida,
esquecendo a lida.
Vai ver seu amor!
      
A noite já avança,
o sol já descansa,
remar, seu ofício,
sua sina, lutar.
A canoa balança,
o remo lhe cansa.
Tanto sacrifício
pelo verbo amar!...

Não sente pavor
de fera ou visagem,
só pensa na imagem
da Rosa a esperar.
Vai pensando nela,
tão meiga, tão bela,
repleta de amor
e beijos pra dar.




Fonte: Incêndios e Naufrágios - Antologia Poética



29/06/13

DE COMO O AÇAÍ DEIXOU DE SER VENENO

DE COMO O AÇAÍ DEIXOU DE SER VENENO

            Das muitas histórias do arco da velha que ouvi quando criança, no Marajó, gosto desta, contada pelo tio Tavino, que explica por que o açaí não faz mal a ninguém. Nem mesmo quando tomado azedo, de um dia pro outro, sem nenhum processo de conservação.
         Tio Tavino afirmava, do alto de sua sabedoria cabocla, que o açaí não era veneno “por um grau” e explicava:
            – No tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo, passando um dia, em companhia de São Pedro, por baixo de um açaizeiro, encontrou vários caroços espalhados pelo chão. Curioso, apanhou um caroço e roeu. Em seguida, cativado pelo sabor peculiar do fruto, resolveu abençoá-lo para que todos pudessem desfrutar de suas nutritivas qualidades. E foi assim, segundo o tio Tavino, que a partir daquele momento o açaí velho de guerra deixou de ser veneno.
            Em minha infância de menino do interior, eu acreditava em tudo o que os mais velhos contavam sem contestação. Nunca quis saber o tipo de “grau” que liberava o açaí para o consumo e ficava  imaginando  Nosso  Senhor  Jesus  Cristo, com sua longa túnica branca e  pés  descalços, andando pelas matas do Cajari sempre acompanhado do seu amigo Pedro. E era como se estivesse vendo o momento da bênção: O Divino Mestre agachado e proferindo as santas palavras com os lábios roxos de açaí...
            E que assim seja para sempre. Amém!


Histórias à beira-rio – Antonio Juraci Siqueira


22/06/13

NÓS, OS FILHOS DO BOTO


NÓS, OS FILHOS DO BOTO



            Após ter aparecido no quadro “Me leva, Brasil!” do “Fantástico da rede Globo de Televisão, afirmando ao repórter Maurício Kubrusly ser “filho de boto”, muita gente procurou-me para saber da veracidade ou não do fato.

            Pois bem: a verdade é que ninguém sacou que a minha “mãe” é a Amazônia e o “boto” em questão é o Capitalismo, esse moço bonito que nos seduz, nos enraba e depois nos abandona prenhes de dívidas e dúvidas. É o mesmo boto que em tempos idos, travestido de regatão, comia nossas tapuias em troca de um corte de chita ou de um vidro de perfume. E a “minha mãe”, a exemplo da “Mama África” do Poeta, também é mãe solteira, também foi e continua sendo estuprada e empre- nhada por esse boto malino, tanto física quanto cultural e economicamente. Ontem, na base do “dá ou desce”, a ferro e fogo; hoje, na mesma base, só que com armas muito mais sofisticadas, sedutoras e eficientes...

            Quando disse ao repórter que minha mãe não “pulou a cerca”, porque não havia cerca, quis dizer simplesmente que a Amazônia continua escancarada e indefesa à cobiça internacio- nal. Tem muito “olho de boto” em cima da gente, das nossas riquezas, da nossa biodiversidade. É “olho de boto no fundo dos olhos de toda paisagem...”


Antonio Juraci Siqueira


Fonte:  Histórias à Beira-rio - Contos e histórias brejeiras

20/06/13

“VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA!”

7 de Setembro de 1999. A exemplo de anos anteriores eu participava da “Marcha dos Excluídos”, ato público a nível nacional organizado por setores da Igreja, partidos de esquerda e segmentos da sociedade organizada para denunciar os crônicos problemas do Brasil, de Cabral aos dias atuais.
Como de costume eu distribuía corações de papel contendo trovas contextuais, entre os manifestantes e o público em geral, como as que seguem:

Acobertando bandidos,
vai a Justiça, em verdade,
aumentando a impunidade
e a procissão de excluídos!
***
Existe, em nossa República,
gente mal-intencionada
fazendo na vida pública
o mesmo que na privada!
***
Brasil, país onde abunda
a impunidade e seus traumas:
o povo toma na bunda
e o governo bate palmas!

Entramos no rabo do último pelotão do exército que participava da “parada militar” e seguimos pela avenida Serzedelo Correa rumo à Presidente Vargas, onde a polícia militar já estava postada com “ordens superiores” de não deixar passar ninguém. Os organizadores do ato ainda tentaram dialogar com os “donos da rua” sem sucesso.
A partir daí, já com os ânimos exaltados, os manifestantes forçaram a barra gritando palavras de ordem contra a repressão mas foram recebidos pelos milicos com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Instalou-se o caos: gritos, correria, tosses e sufocamentos provocados pelo gás de efeito (i)moral. Muita gente ferida, inclusive este valente escriba, atingido por estilhaços de bombas nos braços e barriga.
Tentando proteger minha estimada carcaça, entrincherei-me detrás de um carro esperando a refrega passar, enquanto o locutor do carro-som dos manifestantes pedia calma de ambas as partes. No espaço vazio que se formou entre os manifestantes e a polícia, uma grande faixa de pano jazia sobre o asfalto, abandonada por seus condutores, onde se lia, ironicamente, em letras garrafais:

“BRASIL, VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA!”


( Do livro “Acontecências – crônicas da vida simples” )

16/06/13

MEU CANTO

MEU CANTO

Meu canto aprendi com a água
bulindo na ribanceira
ao som do vento brincando
na copa da seringueira.

Aprendi a rimar com a chuva
no telhado a batucar,
com o urutau que ensaiava
canções à luz do luar.

Meu cantar é como a voz
do mar na areia quebrando
e o canto do rouxinol
quando a aurora vem raiando.

Meu canto escala montanhas,
vence dunas, soa no ar,
transpõe rios e florestas,
dança nas ondas do mar!




Fonte:  Histórias à Beira-rio - Contos e histórias brejeiras