28/09/2009

Três Décimas de Adeus Para Nazareno Silva

... e Tio Nazo partiu... Partiu levando consigo um pouco daqueles que amam e lutam pela cultura popular de nossa terra. Em troca deixou entre nós a semente de seu exemplo de vida, de sua luta em prol de um mundo melhor. Que a paz de Deus esteja contigo, irmão de sonhos.

Chora matraca, pandeiro,

soluça forte, tambor,

para espantar essa dor

que fincou pé no terreiro.

Corre no campo, vaqueiro,

e traz o Boi Pavulagem

para prestar homenagem

ao valente Nazareno

que encerra o labor terreno

e embarca em nova viagem.


Chora meu Boi Malhadinho,

Bole-bole, Xequerê

e Pedreirinha, porque

Deus chamou nosso padrinho.

Foi preparar um cantinho

para o boi dançar no Céu.

Levou tambor e chapéu

todo enfeitado de fita

pra festa ficar bonita

com alegria a granel!


Vai, Tio Nazo! Vai cantando

para os campos do infinito

que o teu exemplo bonito

o vento vai espalhando

nas praças, multiplicando

teu recado de esperança

no sorriso da criança

que tomaste pela mão

indicando a direção

com amor e confiança.


24/09/2009

HISTÓRIA ANTIGA


Faz muito tempo, menino,
que aconteceu essa história...
Se não me falha a memória,
numa cidade da Grécia
e traduz as peripécias
de um sábio dito Platão
que em sua imaginação
planejava uma república
( não tão livre nem tão pública )
muito bem arquitetada
e somente governada
por filósofos de escol.
E desse importante rol
ficavam fora os poetas
com suas musas inquietas,
tidos como agitadores,
demiurgos criadores
de falsa realidade,
um perigo pra cidade!

Imaginava Platão:
“Com a força da persuasão
e mais o mando político,
o poder do senso mítico
volverá contra o razão”.

E para cortar a mal
pela raiz, chamaria
os poetas e daria
a todos coroas de louros
( falsos símbolos, tesouros
de tolos, na realidade )
e em seguida da cidade
seriam todos banidos
como se fossem bandidos,
criminosos sociais.
Porém não pense, rapaz,
que a história termina aí
ela chegou até aqui
pois, em nome da verdade,
a nossa sociedade,
à maneira de Platão,
ainda faz restrição
aos vates dos nossos dias
que ao lhes cobrir de honrarias,
não lhes dá poder nem cargo
fazendo-os sorver o amargo
licor dos atos mesquinhos
onde a coroa de louro,
um verdadeiro desdouro
sem poesia, sem cor,
possui o mesmo valor
de uma coroa de espinhos.

05/09/2009

"VERÁS QUE UM FILHO TEU..."


7 de Setembro de 1999. A exemplo de anos anteriores eu participava da “Marcha dos Excluídos”, ato público a nível nacional organizado por setores da Igreja, partidos de esquerda e segmentos da sociedade organizada para denun-ciar os crônicos problemas do Brasil, de Cabral aos dias atuais.

Como de costume eu distribuía corações de papel contendo trovas contextuais, entre os manifestantes e o público em geral, como as que seguem:

Acobertando bandidos,

vai a Justiça, em verdade,

aumentando a impunidade

e a procissão de excluídos!

***

Existe, em nossa República,

gente mal-intencionada

fazendo na vida pública

o mesmo que na privada!

***

Brasil, país onde abunda

a impunidade e seus traumas:

o povo toma na bunda

e o governo bate palmas!

Entramos no rabo do último pelotão do exército que participava da “parada militar” e seguimos pela avenida Serzedelo Correa rumo à Presidente Vargas, onde a polícia militar já estava postada com “ordens superiores” de não deixar passar ninguém. Os organizadores do ato ainda tentaram dialogar com os “donos da rua” sem sucesso.

A partir daí, já com os ânimos exaltados, os manifestantes forçaram a barra gritando palavras de ordem contra a repressão mas foram recebidos pelos milicos com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Instalou-se o caos: gritos, correria, tosses e sufocamentos provocados pelo gás de efeito (i)moral. Muita gente ferida, inclusive este valente

escriba, atingido por estilhaços de bombas nos braços e barriga.

Tentando proteger minha estimada carcaça, entrin- cherei-me detrás de um carro esperando a refrega passar, enquanto o locutor do carro-som dos manifestantes pedia, desesperadamente, calma de ambas as partes. No espaço vazio que se formou entre os manifestantes e a polícia, uma grande faixa de pano jazia sobre o asfalto, abandonada por seus condutores, onde se lia, ironicamente, em letras garrafais: “BRASIL, VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA!”

01/09/2009

O POETA E A SABIÁ


Em uma de minhas visitas ao Príncipe dos Poetas Paraenses, meu amigo Alonso Rocha, uma surpresa: o Poeta veio abrir o portão às escuras com o dedo indicador posto nos lábios em sinal de silêncio. Ao cruzarmos o pátio da residência, a revelação inusitada: uma sabiá construíra seu ninho no xaxim da samambaia e estava, naquele momento, chocando os ovos sob os cuidados do autor de O Tempo e o Canto. Sorte da sabiá que tem no laureado sonetista e trovador paraense um amigo e defensor, chegando ao ponto de ter, em seu quintal bem arborizado, um “refeitório de passarinhos” onde coloca ração para as várias espécies que por lá aparecem. Coisas de Poeta e passarinhos...