20/08/2009

O SENHOR DOS LIVROS


Praça da República em Santa Maria de Belém do Grão Pará. Manhã de domingo prenhe de sol. Caminhava pelas calçadas com minha inseparável bolsa à tira-colo e alguns livros e folhetos na mão à caça de leitores dispostos a comprá-los. De repente, um grito de menina ecoa na multidão de traseuntes:

- Olhe, mamãe, o senhor dos livros!

Evidentemente que a intenção da garota foi chamar a atenção da mãe para a minha presença, nomeando-me através da mercadoria que apregoava. Talvez até já me conhecesse de outras praças, escolas, feiras...

A frase, dita assim de surpresa, soou diferente aos meus ouvidos: foi como se ela falasse de alguém com poderes mágicos e absolutos sobre os livros a exemplo de “O Senhor dos Anéis”, “O Senhor dos Ventos”...

E foi assim que me vi, repentinamente, transformado no fantástico Senhor dos Livros, um mago ou super-herói vestido de palavras e transferindo a eles, os livros, com a força do meu cajado, poderes para atrair as pessoas para dentro de suas páginas, para o mundo mágico da leitura. Ah!, quem me dera, quem me dera!...

01/08/2009

SABATINA


Acontecia, obviamente, aos sábados. Uma espécie de revisão de conteúdo semanal na Escola São José do Cajari. Os alunos em pé formando um semi-círculo, a palmatória negra de acapu na mão da professora e o medo estampado em cada rosto caboclo. A cada sábado, uma disciplina na berlinda. A mestra fazia a pergunta ao aluno ou aluna que encabeçava o semi-círculo: resposta errada, “bolo” na hora. Cada pergunta não respondida era repassada a quem estivesse na vez que, respondendo corretamente, ganhava o direito de castigar o colega que errou. Muitas vezes a questão passava por muitos sem ser respondida e quando alguém acertava, fazia uma verdadeira faxina, distribuindo bolos nos demais. Eu, que ao contrário da maioria tinha livros em casa além de ser neto de professores leigos, poucas vezes dei a mão à palmatória.

Hoje, com o coração apertado, lembro das tantas mãos jovens, frias, trêmulas e suadas que desci a palmatória sem piedade, como um verdugo. Na época sentia orgulho do feito mas agora, depois de tanto tempo, essas lembranças doem tanto ou mais em minha alma do que doeram naquelas humildes e indefesas mãos ribeirinhas.